Sucupira e erva-baleeira juntas contra dores musculares

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Radiografia da Notícia

* Composição patenteada na Unicamp e licenciada para empresa-filha da Universidade usa menos ativo vegetal e prolonga ação contra dor e inflamação

 Luís Alberto Alves/Hourpress


Na medicina popular, a sucupira e a erva-baleeira, duas plantas nativas do Brasil, são usadas há muito tempo contra o reumatismo e as dores musculares, em geral na forma de chás. Agora, essas espécies estão a caminho de se tornar um creme com propriedades anti-inflamatórias. Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) combinaram extratos padronizados das duas plantas em uma composição analgésica para dor em traumas, edemas, artrites e luxações.

 

A tecnologia, patenteada com estratégia da Agência de Inovação Inova Unicamp, foi licenciada para a Phytochem, empresa-filha da Universidade, com sede em Paulínia (SP). O primeiro produto previsto pela empresa é um creme de grau cosmético, voltado ao bem-estar, para aliviar a sensação de fadiga, o cansaço e o desconforto muscular.

 

Os chás caseiros extraem poucas substâncias ativas das plantas, limitação comprovada nas pesquisas conduzidas na Unicamp, desde a década de 1980. Por isso, a equipe de pesquisadores trabalhou com extratos padronizados, que garantem a quantidade certa de ativos, e testou a combinação das duas espécies. Nos ensaios pré-clínicos, a associação reduziu a dose necessária e estendeu o efeito analgésico e anti-inflamatório de quatro para seis horas, quando comparado ao uso separado das plantas.

 

Efeito sinérgico entre sucupira e erva-baleeira


A invenção reúne o extrato dos frutos e sementes da sucupira (Pterodon pubescens Benth.) e o óleo essencial das folhas da erva-baleeira (Cordia verbenacea DC). A ação da erva-baleeira contra a dor e inflamação já era conhecida. Ao estudar a sucupira, a equipe viu que a potência variava conforme a mistura de componentes da planta. Daí surgiu a pergunta: associar as duas espécies traria vantagens?

 

O resultado das pesquisas comprovaram a hipótese. Em testes com animais, a equipe mediu quanto tempo o efeito durava após uma única dose. Usados separadamente, o extrato de sucupira e o óleo de erva-baleeira agiram por cerca de quatro horas. Combinados, mantiveram o efeito por seis horas, mesmo com uma dose menor de cada um. É o chamado efeito sinérgico, em que a associação supera a soma dos efeitos isolados.

 

“Com isso cria-se uma vantagem tecnológica, porque você diminui a quantidade de ingrediente e potencializa o efeito anti-inflamatório e para dor”, explica Mary Ann Foglio, professora titular da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da Unicamp, que coordenou as pesquisas no Centro Pluridisciplinar de Pesquisas Químicas, Biológicas e Agrícolas (CPQBA). Segundo ela, a dose reduzida tem duplo impacto. “Quanto menos você usa, menor a probabilidade de uma intoxicação. E, para a produção industrial, o custo diminui”.
 

Segurança e padronização de plantas medicinais

O trabalho envolveu ensaios in vitro, em modelos animais e com doses repetidas, além de estudos de segurança que indicaram que os extratos são seguros nas concentrações testadas. Na avaliação de Foglio, em relação aos cremes anti-inflamatórios do mercado, a composição tem efeito mais prolongado com dose menor e baixa toxicidade. Esses cremes devem servir de referência para um futuro estudo clínico.


A etapa mais difícil foi padronizar a matéria-prima. O óleo essencial da erva-baleeira é extraído das folhas frescas, e tanto a quantidade de óleo quanto a proporção das substâncias que o compõem variam conforme o mês e até o horário da colheita. Na prática, folhas colhidas em épocas diferentes podem render óleos com potências diferentes.

 

Para contornar isso, a equipe mediu mês a mês o teor e a composição do óleo e identificou a melhor época de coleta. Como a colheita ocorre ao longo do ano, o produto final é obtido a partir de misturas de lotes que atendem a um padrão de qualidade. No caso da sucupira, cujas sementes são a matéria-prima, o grupo coletou amostras em diferentes regiões do País para comparar teores e respostas. “Para padronizar o extrato, você tem que padronizar o insumo vegetal”, resume a pesquisadora. Com esses dados, o grupo definiu a origem e a melhor época de coleta de cada espécie.

 

A pesquisa foi desenvolvida por alunos de pós-graduação de diferentes unidades, como a Faculdade de Odontologia de Piracicaba (FOP) e o Instituto de Biologia (IB). Ela recebeu fomento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e foi registrada no Sistema Nacional de Gestão do Patrimônio Genético e do Conhecimento Tradicional Associado (SisGen), que prevê a repartição de benefícios com as comunidades tradicionais.

 

Para Foglio, esse cuidado é extremamente importante. “Isso está muito ligado à integridade em pesquisa: é a gente dar crédito para quem merece o crédito”, afirma a professora.
 

Patente e licenciamento para empresa-filha
 

A patente foi concedida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), e o licenciamento foi firmado em 2025 com a Phytochem. Sediada em Paulínia (SP), a empresa foi fundada em 2024 para levar ao mercado os conhecimentos e a patente da Unicamp.

Uma das sócias-fundadoras é Ilza Maria Oliveira Sousa, também inventora da tecnologia. Ex-técnica do laboratório no CPQBA, ela fez mestrado e doutorado na Unicamp sob orientação de Foglio e participou das etapas da pesquisa. “Ela foi uma peça-chave em todos esses desenvolvimentos”, diz a professora.

O próximo passo depende de financiamento. A Phytochem submeteu um projeto à fase 1 do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE) da FAPESP. Se for aprovado, a empresa pretende desenvolver primeiro o produto de grau cosmético, que precisará atender às normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Uma eventual versão como medicamento ainda dependerá de estudo clínico.

 

“Sempre me inquietou ver tantas pesquisas valiosas nascerem dentro da universidade, com um potencial enorme de transformar vidas, mas sem conseguir chegar às pessoas que mais precisavam delas. Eu não queria que todo esse conhecimento ficasse apenas nas páginas de uma tese ou nas prateleiras de uma biblioteca. Foi desse desejo que nasceu a Phytochem: transformar conhecimento científico em soluções reais para a sociedade”, comenta Oliveira Sousa.
 

Prêmio Inventores 2026

Esta é a 19ª edição do Prêmio Inventores que a Inova Unicamp organiza com o propósito de reconhecer e valorizar os inventores engajados na transferência de tecnologias da Universidade e na criação de empresas spin-offs acadêmicas.


Inventores Premiados
 

Mary Ann Foglio, Rosana Tarkany Basting, Humberto Moreira Spindola, Leila Servvat Medina, Ilza Maria Oliveira Sousa, Nubia de Cassia Almeida Queiroz, Rodney Alexandre Ferreira Rodrigues, João Enersto de Carvalho, Rogério Grando e Vanessa Helena da Silva Souza foram premiados na categoria Propriedade Intelectual Licenciada no Prêmio Inventores 2026.

Umidade do solo e qualidade da semeadura definem estabelecimento da soja

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* Com o plantio em andamento, avaliação das condições do solo, ajustes da operação em cada talhão e uniformidade da emergência ajudam a reduzir falhas e risco de replantio

Luís Alberto Alves/Hourpress

 Nesta etapa do ciclo da soja, a definição dos próximos talhões a serem semeados deve considerar mais do que a ocorrência recente de chuvas. A disponibilidade de água na camada onde a semente será depositada e também abaixo dela é um dos principais critérios para decidir quando avançar com a operação. Precipitações isoladas podem molhar a superfície sem garantir condições para sustentar todo o processo de germinação e emergência. Se a semente absorve água, inicia a germinação e o solo volta a secar, aumenta o risco de perda da plântula — a planta em seu estágio inicial de desenvolvimento — e de necessidade de replantio.
 

A temperatura também deve ser observada na profundidade em que a semente será posicionada, normalmente entre 3 e 5 centímetros. Segundo Rafael Vaz, gerente comercial de Sementes da Conceito Sementes, a temperatura próxima a 25 °C favorece o estabelecimento da cultura e pode ser conferida com um termômetro diretamente no solo. "Uma checagem simples no próprio talhão também pode ajudar: ao apertar uma amostra de terra com a mão, ela deve formar um torrão com alguma coesão, sem liberar água", disse.
 

Tipo de solo, cobertura de palha, ciclo da cultivar e planejamento da segunda safra também interferem na sequência da semeadura. Áreas argilosas, por reterem água por mais tempo, e talhões com boa cobertura tendem a oferecer condições mais favoráveis. Já solos arenosos ou de textura média exigem maior atenção à regularidade das chuvas. Nos talhões destinados ao milho safrinha, o posicionamento de cultivares precoces pode ajudar a preservar a janela da segunda safra, desde que sejam respeitadas as recomendações de época de cada material.
 

O escalonamento entre áreas e cultivares também ajuda a distribuir fases importantes do desenvolvimento da soja ao longo do tempo. A estratégia evita, por exemplo, concentrar todo o enchimento de grãos em um intervalo curto, reduzindo a exposição de grande parte da lavoura a uma mesma condição climática em uma fase decisiva.
 

Regulagem precisa ser confirmada no campo
 

Depois da decisão sobre onde plantar, a qualidade da operação passa a ser determinante para a formação do estande. A regulagem da plantadeira antes de entrar na lavoura é necessária, mas não garante, sozinha, que a distribuição das sementes permanecerá adequada em todas as áreas. “Como o tipo de solo, a quantidade de palha e as condições de operação mudam de um talhão para outro, é importante abrir o sulco e conferir se a semeadura está ocorrendo como previsto”, explicou Vaz.
 

De acordo com ele, essa verificação deve ser feita no início de cada talhão, a cada reabastecimento e sempre que houver mudanças nas condições da área ou na velocidade da operação. Entre os pontos que merecem atenção estão a profundidade de deposição, entre 3 e 5 centímetros, a distribuição das sementes na linha, a ocorrência de falhas ou duplas, o número de sementes por metro e o fechamento adequado do sulco. Também é importante observar possíveis danos causados pela plantadeira às sementes, deixando-as quebradas ou trincadas, e garantir que o fertilizante seja posicionado sem contato direto com a semente, evitando danos.
 

A velocidade da plantadeira é outro ponto crítico. Quando ultrapassa a capacidade do equipamento ou não acompanha as características do terreno, pode prejudicar a distribuição das sementes. Os monitores eletrônicos auxiliam no acompanhamento, mas não substituem a conferência direta no solo. “Uma falha identificada nos primeiros hectares pode ser corrigida rapidamente. Quando o problema só aparece depois da emergência, uma área muito maior pode já ter sido afetada”, disse.
 

Mesmo sementes de alta qualidade e corretamente tratadas podem perder desempenho quando encontram condições desfavoráveis. Falta de água após o início da germinação, temperaturas elevadas na superfície, chuvas intensas capazes de formar crosta e excesso de água, com redução da oxigenação do solo, estão entre os fatores que prejudicam a emergência. Problemas como profundidade excessiva, compactação do sulco, contato com fertilizante e danos mecânicos provocados pelo dosador também podem comprometer o estabelecimento.
 

O tratamento de sementes contribui para proteger a soja nos primeiros estágios contra pragas, como lagartas do gênero Spodoptera e a lagarta-elasmo, também conhecida como broca-do-colo, além de fungos de solo, entre eles Fusarium e Rhizoctonia. Essa proteção, no entanto, não compensa condições inadequadas de semeadura ou falhas no manuseio. Sementes tratadas expostas ao sol ou mantidas em locais quentes podem perder vigor, enquanto o inoculante pode ter a eficiência reduzida pelo calor e pelo tempo excessivo entre a aplicação e o plantio.
 

Distribuição das plantas pesa mais do que o número isolado
 

Cerca de dez dias após a semeadura, desde que tenham existido condições adequadas para a germinação, já é possível realizar uma primeira avaliação do estande. Na soja, porém, o número total de plantas não deve ser analisado de forma isolada. A cultura tem potencial de compensar parcialmente populações menores quando as plantas estão bem distribuídas, o que torna a uniformidade um dos principais pontos de atenção.
 

Falhas longas e frequentes nas linhas, espaços de 50 centímetros a 1 metro sem plantas, problemas repetidos em vários pontos do talhão ou sempre nas mesmas linhas da plantadeira podem indicar que a ocorrência deixou de ser pontual. Mortalidade após a emergência e diferenças acentuadas no desenvolvimento das plantas também exigem investigação. “Mais do que olhar apenas para o número de plantas, é preciso entender como elas estão distribuídas. Plantas que emergem muito depois das demais tendem a ficar dominadas e contribuir menos para a produtividade”, concluiu Vaz.

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